A
região Centro-Oeste do Brasil reúne um mosaico de ecossistemas
que envolve floresta, caatinga, campos e alagados. Um lugar que vive
ao sabor das secas e cheias, cuja alternância é quase
cronométrica; o ciclo dura seis meses.
No verão chove muito nestas terras. Aqui, onde a gente está
passando agora, fica impossível de transitar. Nem carro como
este, com tração nas quatro rodas, suporta o volume
da água. Fica tudo inundado: fazendas, casas, pastos. As cercas
desaparecem e não há limites, nem fronteiras para as
terras. O cerrado vira mar. E, apontando para as árvores mais
altas, Adão completou: "Só dá para ver a
copa dos ipês, das aroeiras, das bocaiúvas, dos buritis,
dos carambás, das canafístulas, das figueiras mata-pau,
dos carandás, e dos jatobás-mirins. Os caraguatás,
como estes aqui ao lado, que na ápoca da floração
têm suas folhas centrais vermelhas, nas cheias ficam submersos.
Às vezes, dá para ver as pontas dos mandacarus mais
altos."
Faz tempo que saímos de Anastácio, nosso ponto de partida,
rumo à Fazenda Diacuí, onde ficamos explorando a região
do Rio Negro. Esta cidadezinha, de apenas 22 mil habitantes, situa-se
na margem esquerda do Rio Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Do outro
lado, fica a cidade que leva o mesmo nome do rio. Adão, meu
guia, não se conforma até hoje com a separação
dos dois municípios, ocorrida na década de 1960. "Para
mim, continuava tudo como Aquidauana, como sempre foi", resmungou.
No auge dos seus 77 anos, Adão Bonifácio de Barros,
é um dos bugres - como são chamados os peões
pantaneiros, descendentes dos índios - mais experientes da
área. Ele nasceu aqui, às margens do Aquidauana, na
Fazenda São José, onde hoje...
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