Imagens da Paz - por Frei BettoA
Este livro é um guia espiritual. Uma obra de recolhimento, meditação e prece. Enfim, um sacramento (que significa sinal).
Por trás do cachimbo deixado pelo avô falecido, o neto descobre a presença viva daquele que o acarinhou na infância. Na hóstia consagrada, o católico desvenda a presença viva de Jesus. No fundo dessas fotos, cujas belas imagens se refletem em nosso íntimo, vislumbramos a nossa própria busca de espiritualidade e paz.
Nilton Pavin é jornalista de profissão, fotógrafo por opção e monge por vocação. Sua luz vem do Oriente. Repare bem no rosto dele: arredonda-se budicamente, os olhos ganham traços asiáticos, os cabelos são ralos e esbranquiçados como vemos em mestres orientais.
Diz o adágio medieval que o conteúdo adequa-se à forma assim como a água ao desenho da garrafa. Peregrino de terras longínquas, onde a humanidade ainda guarda o melhor de suas fontes espirituais, Pavin já não é o brasileiro, ocidental, que vai ao outro lado do mundo para saciar sua curiosidade turística. Como em seu primeiro livro, Imagens Proibidas, ele nos traz de lá os sinais, os sacramentos, de uma realidade muito maior e mais profunda que, ao contemplar essas fotos, pressentimos como a nossa verdadeira vocação. Por isso, queima-nos as mãos, e faz arder o coração, este guia espiritual disfarçado de álbum de fotos entremeadas de textos.
Nunca pisei essas terras sagradas tão familiares a Pavin. Mas estive na China e orei em mosteiros budistas, preservados do vandalismo da Revolução Cultural graças à enérgica sabedoria de Chu En-Lai. Certa noite, fui convidado pelo guia a jantar num mosteiro em Pequim. Preveniu-me que os monges eram rigorosamente vegetarianos. Vi sobre a mesa camarões folheados, carne assada, bolinhos de frango e outros quitutes agradáveis ao paladar ocidental. Considerei uma deferência aos nossos costumes. Ao fim do jantar, perguntei ao guia por que os monges haviam aberto uma exceção. Ele me olhou com espanto e, quase me puxando pela mão, fez-me retornar à grande mesa. Então, observei que tudo era feito de vegetais. Ao longo dos séculos, os benditos cozinheiros tinham conseguido oferecer pratos vegetarianos com aspecto e sabor de carnes.
Esse o cardápio que, agora, Mestre Pavin nos oferece. Por trás dessas palavras e dessas fotos, há um mundo de transcendência e transparência que ressoa em nossa sede de Deus e de paz. Contemplar essa maravilha faz-nos mais convictos da previsão de André Malraux, que tão bem conhecia o Oriente: "O século XXI será a era da mística". Se Deus quiser e soubermos abrir o coração aos ventos que sopram, como diz Jesus, sem saber de onde vêm e para onde vão.

 

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